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Antônio Faiçal | Foto: Estela Marques / Bahia Notícias
Segundo o juiz, no órgão, são realizados cerca de 100 atos mensais. Entre 1º de setembro de 2015 e 31 de agosto de 2016, primeiro ano das audiências de custódia em Salvador, passaram pelo núcleo 3.331 pessoas. Entre elas, 1.250 continuaram presas, um percentual de 37,5% de manutenções de detenções. O dado mostra, segundo o juiz, que a Justiça tem enviado para o sistema carcerário apenas quem não tem condições de responder o processo em liberdade. O perfil dos presos provisórios é composto por 95% de homens e 5% de mulheres. De acordo com Faiçal, a “imensa maioria” tem entre 18 e 21 anos, enquanto um “grande percentual” possui entre 21 e 25 anos. A maior parte delas foram presas por furto, roubo, porte de armas, tráfico de entorpecentes e enquadrados na Lei Maria da Penha. Nesta massa de detentos provisórios, muitos também foram levados à cadeia por estelionato e outros crimes considerados mais difíceis de situação de flagrante, como estupro e homicídio. Grande parte delas também é pobre e negra. O coordenador do núcleo também rebate as declarações de entidades como a Ordem dos Advogados do Brasil – Seção Bahia (OAB-BA) e Pastoral Carcerária de que as audiências de custódia estão com implantação lenta no estado. De acordo com ele, existe uma “resistência operacional”, que impede uma maior celeridade neste processo. “A gente precisa contextualizar. O tipo de acerto que nós tínhamos aqui em Salvador, antes mesmo de oficializar as audiências de custódia, facilitou a gente ter a estrutura que temos hoje. É óbvio que é essencial expandir isto para todo o estado, mas ainda sofre algumas resistências. Não de resistência ideológica dos magistrados, mas uma resistência operacional”, pondera. “Temos muitas varas criminais, muitas cidades pequenas, às vezes desprovidas de juízes e defensores públicos. Essa resistência operacional precisa ser vencida. Quando isso acontecer, teremos um ambiente muito mais propício para as audiências de custódia. Infelizmente, a solução não é em um estalar de dedos”, afirma. As audiências, além de sofrerem com a resistência da sociedade, também precisam lidar com a oposição de policiais. Entre os agentes, segundo o juiz, impera a lógica do “A polícia prende, mas o juiz solta”. Já a sociedade, também para Faiçal, possui um “desejo punitivo” crescente. Para sensibilizá-los quanto à importância da medida, o magistrado defende que o melhor remédio é a informação. “Talvez falte a eles um pouco mais de informação, de perceber como as coisas têm funcionado, para que eles possam ter uma visão diferenciada do que a audiência tem representado. A coisa tem que ser percebida a longo prazo. Mostrar que a regra que valia até então não tem dado certo. A fórmula não fecha. Polícia prendendo muito, Judiciário prendendo muito, muita gente encarcerada, a população carcerária crescendo, mas a criminalidade não diminui, só aumenta também. Alguma coisa nessa fórmula está errada. A gente precisa descobrir o que é, e as audiências de custódia talvez venham a ser uns dos passos para a gente conseguir desvendar esse mistério”, sinaliza. Ainda de acordo com o coordenador do Núcleo, as audiências trarão, a longo prazo, benefícios para a sociedade. “O primeiro ponto é não segregação em massa desnecessária, que pode atingir qualquer um de nós. Talvez uma redução do custo operacional que o estado arca com o sistema prisional. E, já que reclamam tanto, e com razão, da falta de velocidade do Judiciário, nesta área, temos um serviço muito sério”. Faiçal também prega que a humanização é, “sem dúvidas”, o caminho para melhorar a situação do sistema prisional brasileiro. “Precisamos dar dignidade a essas pessoas. Quando o Estado toma para si a responsabilidade de manter pessoas presas, ele tem que fornecer o mínimo de dignidade para que o sujeito sobreviva naquele ambiente”, vaticina. Em um contexto de discussões sobre reformas no sistema prisional brasileiro, o juiz defende que este é o momento de mostrar para a população a importância das audiências de custódia. Precisamos sensibilizar as pessoas que pensam em endurecer o sistema prisional. A gente tem que tentar extrair alguma coisa positiva de uma tragédia. E, se houve alguma coisa positiva, é trazer à tona um problema do sistema prisional que precisa ser revisto e, com isso, reforçando as audiências de custódia. Vamos tentar extrair um bônus desse ônus”, conclui.
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